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Seria incomum para um homem das ciências como eu, um gênio da genética, se interessar pela arte literária? Ou toda expressão artística é inerente ao indivíduo? Será a mente movida pela poesia, essa conjunção de versos que infalivelmente carregam ritmo e sentimentos intrinsicamente humanos? Ela move os órgãos interiores com sua cadência, como uma extensão dos mesmos? E qual seria o catalizador que nos faz apreciar a arte poética? Não obstante, é assim que me sinto movido hoje. Tenho o desejo de falar em alegorias figurativas.

Borboletas são azuis
e rosas são vermelhas,
será a morte um fim
e nossa última centelha?
Morremos a cada dia
com o passar dos nossos anos?
Ou ser um geneticista
é o que me leva a esse engano?

Lancem seus votos a este Ganesha da poesia, ao Brahma da imagem retórica, ao Goku da prosa figurativa: Mohinder Suresh! Deveria eu ter escolhido um caminho diferente? Ou fui eu forçado a seguir os passos de meu pai? O que teria sido do Mohinder se ainda estivesse na Índia? Talvez eu deveria aceitar aquele emprego aqui no sindicato dos roteiristas. Eu teria feito uma fortuna, é verdade, mas teria sido feliz? Poderiam 20 dólares a hora comprar a felicidade? Ou não há um preço para tal conceito?

E, em vez de conhecer o Sylar (não me refiro ao sentido bíblico de ‘conhecer’ alguém) e de virar as costas para ele (também não no sentido romântico da coisa), talvez tivéssemos unidos forças como parceiros. A pesquisa de meu pai teria sido um trampolim para nosso desejo de matança, que seria canalizado para a escrita e teria trazido narrações e roteiros de algo que alertasse ao mundo sobre a existência da evolução. Ou, pelo menos, se ele se cansasse de mim, eu poderia dispor de um tempo maior a fim de escolher um bom modelito de roupa para vestir no meu velório.

Ah, mas vocês repararam a pequena mudança na imagem do topo de meu blog? Ela reflete melhor minha atual situação…

O que é isso a que chamamos de emprego? Seria vender o nosso tempo e trabalho em troca de remuneração desejável para a sobrevivência do indivíduo dentro da espécie? Há alguns meses atrás, me ofereceram uma vaga. Disseram que eu deveria trabalhar com a Companhia, onde não apenas eu teria tudo para conduzir a minha pesquisa, mas também ganharia suprimento ilimitado de papel. Bem, foi bastante tentador, devo admitir. Na Índia não tínhamos tanto contato com papel, nem mesmo esses higiênicos de três camadas. Um tal de Thompson então me deu um tapinha no ombro para selar o acordo antes de nos afastarmos.

Tempos depois, fui novamente abordado por um homem da Companhia. Foi uma época em que eu ainda me questionava se eu era um geneticista ou um motorista de táxi. Ou será que não são coisas excludentes, uma vez que o táxi segue o fluxo do trânsito como células em busca de equilíbrio molecular? Além disso, ambas profissões nos colocam em risco, já que meu pai trabalhava em ambas e morreu dentro de seu táxi e por causa de suas pesquisas. O homem agora se chamava Bob. Fomos almoçar e ele me mostrou sua habilidade de ouro. Eu não parava de lhe fazer perguntas, afinal, eu tinha acabado de conduzir uma palestra e estava aquecido para teorizações. Ele me disse para parar de filosofar em cima da comida. Mas eu estava perdido, estonteado, confuso em meus pensamentos permeados de nuvens cognitivas… Ele me lembrou que eu só tinha uma hora de almoço e, por isso, deveria utilizá-la comendo em vez de pensando. Não sei porque todo mundo diz que preciso me alimentar. Então saboreei daquela ave comestível. Embora meu estômago digerisse a carne, minha mente continuava a digerir as apresentações do destino. Quem faz as escolhas? Quem decide se lutamos ou fugimos voando? Ele me estendeu uma passagem de avião e me mandou curtir o vôo.

Já na nova cidade, ele ordenou: injete na garota. Eu não consegui. Não é muito do meu feitio injetar em garotas. Não pude fazer isso. Quando diante do dilema, parado na frente da pergunta que o destino me fazia, precisei decidir submeter-me ao Bob ou destruir o ambiente à minha volta com um rompante de ira máscula. O que eu poderia fazer? A resposta vocês já imaginam. Qualquer cientista extremamente inteligente adoraria arremessar cadeiras de laboratório nos armários de vacinas, e foi o que fiz. Exatamente como aprendi na faculdade.

Porém, essa demonstração de evolução e de enlace com o destino me trouxe como conseqüência o temor por minha vida, pois – após essa minha atitude – Niki, a mulher psicótica com superforça, foi então designada como minha nova parceira. Eu tenho muito medo do sexo oposto, como todo geneticista deveria ter; pois sei que a voluptuosa essência feminina cria um sentimento único dentro de mim que só pode se igualar à abertura de um saco de Doritos com cheiro de queijo nacho. Aprendi na Índia que é assim que são as mulheres: extremamente perigosas por serem poderosas e terem tantas armas naturais. Esta mulher com superforça também tinha uma personalidade superforte. Ela deixou isso bem claro ao fazer com que eu precisasse de um curativo no nariz no auge da nossa parceria. Eu tremia como uma gazela africana ao ver a ferocidade do leão. Assim era a feroz Niki. Eu não me sentia intimidado dessa forma desde que me intimidei com a complexidade das leis de imigração americana. As mulheres são muito complexas. Ela mandou eu levantar os olhos achando que eu estava olhando para o seu corpo, mas na verdade eu estava tentando descobrir a marca daquele adorável terninho…

Por que eu sigo encontrando pessoas peculiares? Será que tenho uma atração a indivíduos que se destacam da massa? Vejam esse garoto, o Peter. Ele parecia ter sérios problemas de depressão e costumava chorar pelos cantos ouvindo músicas que eu nunca compreendi. Como cientista, tentei ajudá-lo, ainda que tenha tido poucas cadeiras de psicologia na faculdade da Índia. Então comecei a pensar: psicologia estuda a alma humana. E, revendo a teoria do meu pai, me perguntei: será Peter um humano? Ou seja, será ele capaz de ser psicoterapeutizado? Pessoas com habilidades especiais ainda assim são pessoas, não são? Não importa o quão geneticamente avançada ela seja. Então eu comecei com o básico.

Perguntei-lhe, não sem alguma aliteração no meio: Peter, de onde vem esse estado excessivamente emocional que você vem apresentando? Ele então me disse que estava sempre triste, e que só ficava pior, e questionou-se: Por que isso acontece comigo? Foi uma pena eu não me lembrar de mais nada das minhas poucas aulas a fim de avançar ao próximo passo da análise. E o Peter não me pareceu curado com o início da minha tentativa. Assim, protelei a conversa para outra data.

Afinal, eu tinha coisas mais interessantes para me concentrar do que o choro incontido daquele rapaz. Dirigi-me ao meu laptop. Não, não fui jogar Paciência, eu já evolui. Jogo coisas mais difíceis, como ‘Free Cell’. Seguramente, quando não há mais nenhuma ‘Célula Livre’, um geneticista fica impossibilitado de continuar com sua exploração. E foi o que me aconteceu aquele dia.

Terá sido isso uma analogia? Será o destino me mostrando alguma coisa? Terei eu esgotado toda oportunidade de evolução? Ou há ainda uma célula livre por aí, ansiosa por eu ocupar-me dela? Ou é só isso? Será este um ‘game over’ para o Mohinder? Um final de jogo para a teoria de meu pai? Ou talvez da própria raça humana? Ela foi descartada do tabuleiro do planeta?

De onde vem isso? Essa busca, esse desejo pela célula que nos falta? É por causa dele que criamos os celulares? Para nos lembrar de conectarmos com as nossas células? Seja como for, isso me faz lembrar que eu precisava telefonar para alguém. Mas quem seria? E por que eu não me lembro? Estarei eu perdendo minha capacidade de memorização depois de tanta informação armazenada? E o que virá em seguida?…